sábado, 5 de abril de 2008

E se ELE não estiver lá ?!?

Victor era um bom rapaz. Tinha vários amigos, uma família legal, enfim, um rapaz normal, com seus 22 anos. Até que um dia estava tranqüilamente caminhando quando, ao se aproximar da calçada, percebeu que uma garota seria atropelada por um ônibus. Victor não teve dúvidas. Correu pra salvá-la. A garota tinha uns 19 anos. Mas Victor, naquele dia, perdeu a cabeça por ela. E o ônibus perdeu a hora e o motorista perdeu o emprego.
Quando acordou, Victor percebeu que estava num lugar meio diferente. Era um lugar estranho de cores variando entre o azul claro e o branco. Pois é, estava no céu. Percebeu naquele instante que havia morrido. Buscou uma janela pra tentar olhar pra baixo e talvez ainda presenciar seu velório, mas o lugar não tinha janelas. Tinha só um longo corredor. Victor ainda incomodado com sua situação começou a caminhar, uma vez que já estava morto mesmo e sabia que não teria mais nada a fazer. Talvez encontrasse Deus ao fim do corredor. Ou São Pedro. Podia ser até o anjo Gabriel. Só queria alguém pra conversar e orientá-lo. Ou explicar alguma coisa, afinal era um novato. Não sabia o que deveria fazer. Enfim.
Não sabia quanto tempo caminhou, mas acabou chegando ao fim do corredor e encontrou apenas uma porta, um bilhete escrito “senha n.º 2” um letreiro daqueles que orientam as pessoas que estão com as senhas nas mãos e um banco bem grande. No letreiro estava escrito “000”. E a porta continuava fechada. E Victor esperava pensando em quem sairia daquela porta. Ou nem precisava sair. Só queria que chegasse logo o seu número pra poder entrar naquela sala que já lhe causava ansiedade. Enquanto isso esperava.
Depois de um tempo, começou a ter raiva de si mesmo.“Por quê morri sem relógio?” questionava-se por não saber a quanto tempo estava ali, esperando. Mas parecia ser o único jeito. Esperar e esperar. Não sabia nem o que , nem porque, mas esperava. A essa altura nem precisava ser Deus que estivesse lá. Contentaria-se com Alá, Maomé, Buda, Krishna. Pra falar a verdade poderia ser até o Papai-Noel ou o coelhinho da Páscoa. Só queria alguém ou alguma coisa. E esperava, esperava. E esperava mais um pouquinho.
Pensava em tanta coisa que nem percebeu que estava, desde que chegou e sentou ali naquele banco, na mesma posição. Quando se deu conta estranhou pois suas pernas já deveriam estar adormecidas e doendo. Mas não estavam. Nem seu pescoço doía e olha que ele tinha boas razões para tal. Até que começou a gritar. E gritava e gritava, cada vez mais alto. E não havia ninguém para se incomodar. Nem um ruído sequer, senão o do eco. Coitado do Victor. Desanimou. Não sentia sede, nem fome, nem frio, nem calor. Mas ele via seu corpo e o reconhecia. Suas roupas, seu sapato, tudo como quando viu seu último ônibus passar bem na sua frente.
Até que não agüentou mais. Já estava irritadíssimo. Chegou perto da porta e colocou seu ouvido lá.Nada. Toc! Toc! Toc! Esperava. Nada. Mais batidinhas na porta. E nada de novo. Até que tomou coragem, respirou fundo, fez uma prece, abriu a porta e... não tinha ninguém lá. O que havia lá dentro era uma cama. Não teve dúvidas. Entrou sem pedir licença, deitou e dormiu. E está dormindo até hoje.
P.S.: Não sou ateu. Juro. Acredito muito em Deus. É só um conto curtinho que escrevi pra ser engraçado.

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